Estou no meu lugar?

Estou no meu lugar? É a pergunta que o Pe. Ottorino Zanon (1915-1972) nos colocava e nos levava a pensar, orar e discernir, antes de darmos uma resposta nas nossas decisões. Pergunta simples e comprometedora, já que pode ajudar na vida pessoal e na nossa ação pastoral. Estou no meu lugar?

Antes de responder, um comentário do Papa Francisco, para entender o lugar do ministério pastoral, colocando o discernimento como uma ferramenta, e nos comprometer com maior liberdade. Não estamos desenvolvendo um método de discernimento, mas apontando apenas a algumas atitudes anteriores ao próprio discernimento.

Na Exortação Apóstólica Evangelii Gaudium, o Papa nos convidava a colocar em prática o discernimento pastoral, e diz o seguinte:

A missão pastoral pretende abandonar a abordagem pastoral confortável de “sempre foi feita dessa maneira”. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, estruturas, estilo e métodos de evangelização das próprias comunidades. Uma postulação dos fins sem uma busca adequada da comunidade pelos meios para alcançá-los é condenada a se tornar mera fantasia. Peço a todos que apliquem as orientações deste documento com generosidade e coragem, sem proibições ou medos. O importante é não andar sozinho, contar sempre com os irmãos e principalmente com a orientação dos bispos, em um discernimento pastoral sábio e realista. (EG33)

O discernimento pastoral tem suas demandas, dinâmicas e processos, mas antes de entrar no campo pastoral, é necessário fazer uma ressalva, porque, caso contrário, corremos o risco de autoengano.

Há uma pedagogia no discernimento que vai do mínimo ao máximo, e é bom lembrar que esse caminho é um processo, para responder mais de acordo com as moções experimentadas.

A primeira coisa a ter em mente é o discernir individualmente. Se não temos capacidade, hábito ou prática do discernimento pessoal, é muito difícil ajudar os outros a discernir. É essencial em nossa vida buscar a vontade de Deus, e permanecer atento para dar uma resposta através das atitudes que são postas em prática na vida cotidiana.

Um segundo momento corresponde ao discernimento com o outro, para confirmar e verificar se minha percepção não está distorcida. No que diz respeito ao discernimento pastoral, surgem situações em que estamos envolvidos; portanto, é necessário consultar um outro, buscando uma verificação das próprias conclusões, levando em consideração todos os dados.

Um terceiro momento é o discernimento realizado em grupo ou comunidade. Isso assume as duas anteriores e coloca o grupo em uma posição para procurar a coisa certa. Este modo corresponde ao grupo ou à comunidade, onde é necessário dialogar com respeito e sinceridade, expondo razões, desejos e sentimentos, para atingir como grupo a indiferença necessária, liberdade interior, e decantar o definido, não como sua ou minha opinião, mas nossa decisão inspirada pelo Espírito Santo e mais de acordo com as moções interiores experimentadas.

Em cada uma das três possibilidades, é conveniente desenvolver o hábito do discernimento, para que a realidade muitas vezes complexa nos encontre bem “treinados” nisso.

Aqueles que estão acostumados a discernir, fazem isso com maior facilidade. O silêncio e a meditação pessoal nos ajudarão muito nesse itinerário, ao mesmo tempo que ouvimos serenamente a partilha e o diálogo apresentando as opiniões, por vezes diferentes, até perceber o leque de possibilidades apresentadas e discernidas. Desta maneira, chegaremos ao comum acordo e discernimento pastoral.

O discernimento nos desafia ao dar uma resposta possível e adequada, de acordo com a necessidade suscitada. Abraçar toda a complexidade da realidade, sem se reduz à aplicação de regras gerais, o que nos levaria a uma normática. No discernimento pastoral não se discute o ideal evangélico, que conserva toda atualidade nem se discerne a verdade, mas o melhor caminho que nos leva a ela. É um processo que devemos muitas vezes fazer, de acordo com as condições reais e medidas apresentadas.

O ideal pode ser claro, mas precisamos encontrar a maneira de chegar a ele, sem vencedores nem vencidos. No discernimento pessoal aceitar o convite do Papa para “sermos ousados e criativos nessa tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos de evangelização” ajudará a responder à pergunta colocada no início: Estamos no nosso lugar?

O discernimento comunitário é uma boa resposta.