Jesus sacerdote servo

Dessa vez nos encontramos com todas as peças do icone que formam a Cruz, que segundo o padre Jorge Dario, nos tramitem a mística de Jesus sacerdote servo. A mesma nos inspira a preciosas imagens para entrarmos neste mundo da iconografia, nos levando a contemplar detalhadamente o centro de nossa espiritualidade encarnada.

Podemos ver que toda a cruz é circundada por uma faixa de ouro que representa a “Luz incriada”, como os padres da igreja chamam a Luz do Espírito, que paira sobre o “nada”,   muda-o, transforma-o em “ser”; soprando sobre “caos” transforma-o em “cosmos”, ou seja, “ordem”, “beleza”. É a luz na qual todas as coisas vivem, se movem e existem. É a luz da graça. O ouro simboliza esta Luz não criada porque é uma matéria que não se deteriora, que não enferruja, que permanece sempre luminosa. Além disso, o ouro está relacionado ao sol. Como o sol, luz criada, dá vida a toda a Terra, a luz não criada dá vida a todas as criaturas.

O sinal da Aliança está representado no ícone por uma linha vermelho-sangue, que contorna todo o ícone e também a auréola de Jesus. Na primeira aliança, Moisés tomou sangue e o derramou sobre o altar e sobre o povo, dizendo: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco” (cf. Ex 24,6-8). Por que o sangue? Porque é um sinal da vida que corre dentro, porque é um sinal de uma vida doada e muitas vezes com dor. A aliança, então, não é sobre um contrato com Deus, mas da sua própria Vida. Jesus não derrama o seu sangue sobre nós, mas dá-nos para beber-lo. Para que, assim como Ele assumiu tudo de nós em sua humanidade, também nós assumamos tudo Dele, também a sua Divindade. Ele nasce por nós, e este Filho que nasce de nós, de nossas dores e de nossas alegrias, é Ele e nós juntos; e ninguém pode separar o que Deus uniu. Uma Aliança que tem características de compromisso de noivado, já presentes no AT em Oséias ou no Cântico dos Cânticos, e que no NT adquire seu caráter definitivo no Sacrifício Pascal de Cristo.

De fato, a carta aos Hebreus (10, 5-7) isto se expressa de forma maravilhosa essa relação que se estabelece entre Deus e os homens, por meio de Jesus Cristo. Está escrito: “Quando Cristo veio ao mundo, disse:” Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém formate-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui, – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ò Deus, para fazer tua vontade.”

Estas palavras remetem-nos à reflexão sobre Jesus sacerdote, servo feitas pelo padre Paulo Crivellaro: “Ele não veio para cumprir a Lei com os ritos, mas para fazer a vontade de Deus através da oferta do seu corpo”. A verdadeira oferta a Deus (Constituições do PSSC nº 6) não se faz com o sacrifício de animais ou com a oferta de coisas, mas: Tu formaste um corpo para mim. A oferta a Deus é feita no corpo. Esta é a nova Aliança. Não no sacrifício de animais, mas na doação da própria vida, motivada pelo amor.

Eis-me aqui – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim ò Deus para fazer tua vontade”. Cristo está diante do Pai como aquele que quer cumprir a sua vontade (Constituições 6; C57). E aqui podemos recordar P. Ottorino que muitas vezes citou esta frase, referindo-se à vontade de Deus também no sentido simples das coisas do quotidiano. Eu tenho que fazer a vontade do Pai agora, nesta ou na outra coisa, mas faço com essa consciência. Penso que tudo isto deve ser interpretado como uma disponibilidade fundamental de se oferecer a Deus para cumprir o seu desígnio de amor.

Jesus, segundo o texto da referida Carta aos Hebreus, exerceu o seu sacerdócio oferecendo toda a sua vida, todo o seu ser para que a vontade de Deus se cumpra. E nisso consiste a novidade do sacerdócio de Cristo.

Como os cristãos participam do sacerdócio de Cristo, e poderíamos dizer de sua diaconia em virtude do batismo, todos somos chamados a participar do mesmo sacrifício: vivo e santo que agrada a Deus: esse é o nosso culto espiritual. Não siga o fluxo do mundo em que vivemos, mas seja transformado pela renovação da sua mente. “Assim poderão ver qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito ”(Rm 12,1-2).

Jesus não oferece mais animais para representar o sacrifício. Em vez dos animais, ele se oferece e assim supera a separação entre ofertante e oferenda. Jesus supera também a separação entre o sacerdote e o povo, porque, como nos diz o Evangelho, sempre encontramos Jesus no meio do povo (Cons. 42), o encontramos solidário com os pobres. Ele não pertence a uma casta separada, mas vive misturado com o povo, e assim também essa separação é superada em Jesus.

E, finalmente, Jesus, oferecendo-se, pode apresentar-se a Deus – como diz a Carta aos Hebreus – «digno de fé e misericordioso e tem autoridade diante de Deus porque é inocente e santo e cheio de misericórdia para com os homens» (Hb 7, 26; 3, 1-2). Portanto, ele também supera aquela separação entre Deus e o homem, e cumprindo a vontade de Deus, para realizar o desígnio de amor de Deus, ele cumpre o desejo de seu Pai para a humanidade: “que todos os homens tenham vida plena” (Jn 10, 10).

Continuara….