UNIDADE NA CARIDADE

UNIDADE NA CARIDADE… Pe. Juan Carlos Rengucci. PSSC

Quando falamos de discernimento pastoral, e principalmente das atitudes necessárias para esse processo, é essencial ter em conta o discernimento pessoalpois sem ele não podemos adentrar no cuidado pastoral.

Hoje colocamos dois elementos necessários no discernimento: unidade e caridade. Aspectos constitutivos que se fundem para serem vividos neste processo. Para isso, citamos um parágrafo que destaca o desejo do Pe. Ottorino, o que ele sentiu e sonhou, para poder ajudar como horizonte.

“Existe uma caridade por cultivar em nosso meio que nos levará Àquele que é Caridade. Por isso, reúnam-se com frequência entre si para rezar juntos e discutir fraternamente a melhor maneira de viver a caridade e encontrar os meios mais adequados para divulgá-la… Temos que estar prontos… pessoalmente… para manter a caridade e a unidade”.

Promover duas atitudes e condições essenciais: UNIDADE e CARIDADE, palavras tão maravilhosamente expressas, e muitas vezes pouco experimentadas. Para expressar a sua importância na implementação do processo, as colocamos como a chave para o discernimento sinodal, neste Kairos. É sempre bom lembrar que o discernimento de espíritos é uma maneira de encontrar e seguir a vontade de Deus, de acordo com a tradição de Santo Inácio de Loyola. Trata-se de distinguir o que vem do bom Espírito que traz mais satisfação interior, senso de vida e comunhão; e, pelo contrário, o que vem do espírito ruim, que é oposto ao anterior: confusão, perda de significado e ruptura interna negativa.

Com base nisso, vale a pena fazer o convite para adentrar em uma genuína atitude de discernimento sinodal, de buscar e encontrar a vontade de Deus. Com isso, espera-se não cair na armadilha de entrar em controvérsias antes do discernimento, onde poderíamos ser distraídos por certas posições que não enriquecem o processo.

Ponhamos o olhar na Unidade. O Papa Francisco nos lembra: “A unidade não é primariamente o resultado de nossa ação, mas é um dom do Espírito Santo. No entanto, isso não será um milagre no final, a unidade vem pelo caminho, o Espírito Santo a constrói nesse caminho.” A base se encontra no Evangelho: “Que todos eles sejam um!” (cf. Jo 17,22). Esse convite nos desafia para nos tornar, primeiro um dentro de nós. Às vezes, não nos sentimos em harmonia, ou temos conflitos internos e externos. A consciência, à luz de Cristo, ilumina nosso espírito e responde aos sussurros do mesmo Espírito Santo que deseja seguir o que é certo. Tornar-se `um´ dentro de nós mesmos, nos prepara para uma bênção ainda maior de nos tornarmos `um´ com o outro em Deus, somente por ação (divina no ) conjunta ou projeto comum.

É importante destacar o valor da unidade, a convicção real de que todos precisamos um do outro, e temos que nos apoiar fraternalmente para alcançar nossos objetivos e metas; não podemos viver separados dos outros, mas devemos sempre criar pontes de união para viver juntos, em harmonia, com a graça da caridade, não apenas nos dando bem, mas também buscando essa unidade na caridade. Lembro a frase de S. Agostinho: No essencial, a unidade; na dúvida, a liberdade; em tudo, a caridade...

Dessa maneira, concentraremos a energia e direcionaremos o pensamento, as ideias e os desejos de modo que eles estabeleçam um objetivo claro, a ser alcançado. A realização desse caminho nos confronta com outro desafioque é a caridadeCaridade que são os hábitos de Deus impressos na nossa inteligência e na nossa vontadepara ordenar nossas ações com Deus. Amar o próximo inclusive acima si mesmo! A caridade é a virtude teológica pela qual Deus é amado acima de todas as coisas. Essa prática exige a correção fraterna; benevolência recíproca, sempre altruísta e generosa.

“Deus não tem simplesmente o desejo ou a capacidade de amar; Deus é AMOR; e a caridade é sua essência, sua natureza. Ele é único, mas não está sozinho; não pode estar só, não pode se fechar, porque é comunhão de pessoas. O amor, por sua natureza se comunica e se espalha. Deus nos associa à sua vida de amor”.

Sem dúvida, o desejo de unidade na caridade é uma moção do bom espíritoe não apenas um sloganSaber identificar o que é de Deus e sentir a sua consolação espiritual” (EE 316): aumento de esperança, fé, unidade e caridade, alegria interna que atrai as coisas de Deus. Pelo contrário, a “desolação espiritual” (EE 317) não é de Deus, e se sente como trevas na alma, confusão (inquietação destrutiva), que nos inclina à desconfiança e ao absurdo.

Esses dois aspectos, vividos primeiro de maneira pessoal, são fundamentais no discernimento pastoral, de modo que nos levam a reafirmar que somos chamados a fazer uma leitura séria e profunda. Que devemos discernir com coragem e liberdade interior o que Deus nos pede nesse momento que reconhecemos como um verdadeiro Kairos. Um momento especial e propício para reconhecer a revelação de Deus para cada um de nós, e para a missão, em um mundo onde Ele continua sonhando o bem da humanidade.

Unidade na caridadesabendo que discernir é saber viver no cotidiano o extraordinário de Deus.