Lava pé

Continuemos montando e contemplando nosso Ícone. O padre Jorge Dario, com a sua reflexão, nos ajuda a entrar na dinâmica da contemplação da imagem, deixemo-nos que nos conduza e que o mesmo Senhor nos fale e enriqueça a nossa espiritualidade.

Para isso, agora orientemos nossos olhos em direção à imagem que aparece no braço esquerdo da cruz (olhando de frente) ele representa a lavação dos pés.

Vemos que é uma imagem simples, bastante austera, cuja centralidade está na cena que representa. O Evangelho segundo São João diz que, enquanto Jesus celebrava a Páscoa com seus discípulos, “levantou-se da mesa tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura”.

“Levantou-se da mesa”, neste gesto Jesus assume um significado especial. Nos revela que não se pode servir permanecendo no comodismo. O gesto de levantar significa que há algo para ser feito.

“Ficar de pé”  é posição que expressa prontidão para servir; para isso é preciso deslocar-se do próprio “lugar” e descer até o “lugar” do outro. É desinstalar-se do próprio bem-estar, é dinamismo.

“Tirou o manto”: Ele mesmo se despoja. Abrir mão do manto é uma iniciativa livre e soberana, que nasce de seu próprio interior. O manto impede a liberdade de movimentos, não permite fazer o serviço com facilidade.

Começou a lavar os pés (cf. Jo 13,2ss). Gesto incompreensível, especialmente para Pedro, mas que manifesta o amor extremo (cf. Jo 13,1), com o qual Deus ama a todos. Mesmo aqueles que podem trair Aquele por quem juram dar suas vidas.

O gesto de Jesus nos convida a deslocar-nos, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Que novidade percebe a partir deste lugar?

O gesto que Jesus faz expressa o que Ele é. Ele é inteiramente servo. Todo o seu ser está a serviço. Ele se dá naquilo que faz, e faz o que propõe aos discípulos. Lava os pés dos discípulos. Inclina-se aos pés deles, até o chão. Com reverência, o mestre lava os pés dos discípulos: essa é a dinâmica que revela a novidade do Reino de Deus. “Lavar os pés” dos discípulos é cuidar dos que servem os servos.

Jesus se torna um servo por amor (cf. Fil 2,7). Há uma pergunta de Jesus para seus discípulos: “Você entende o que eu fiz com você?” (Jo 13,12).

“Estar à mesa” é sempre sinal de fraternidade, de comunhão, mas é necessário saber levantar-se na hora certa para poder servir com amor.

E é o próprio Jesus Cristo quem dá a resposta e explica a razão do gesto: «Vocês me chamam de Mestre e Senhor, e diz bem, porque eu sou. Pois se eu o Senhor e o Mestre, lavei seus pés, vocês também devem lavar os pés um do outro. Porque dei um exemplo para que vocês também fizessem o que fiz com vocês» (Jo 13, 13-15).

Jesus volta ao lugar em que estava antes, mas volta diferente. Ele repõe o manto, mas não depõe a toalha-avental. Ele assume e visibiliza uma nova realidade que caracteriza o novo modo de ser, que é próprio dos cristãos. O amor-serviço tem como primeiro símbolo o avental. A autoridade cristã nasce do serviço, se sustenta nele, só persevera servindo.

Jesus pede que a dinâmica iniciada por Ele tenha continuidade, seja progressiva e circular, partindo do meio para a periferia em forma de círculo a fim de atingir a todos.

Continuara….